da Terra e do Território no Império Português

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Cacau

O cacau é fruto do cacaueiro (Theobroma cacao L.), que é originário das cabeceiras do rio Amazonas, de onde se expandiu em duas direções: para o norte, seguiu pelo vale do Orinoco, penetrando na América Central e no sul do México; para o sul, correu pela bacia do Amazonas. A primeira expansão originou o grupo denominado “criollo”, enquanto a segunda gerou o “forasteiro”.  Mais resistente que o primeiro, o forasteiro representa hoje 95% da produção mundial, proveniente do Brasil e de países da África Central. Este percurso, entre a Amazônia e a África, passando pelo sul da Bahia, foi orientado, inicialmente, por políticas de incentivos e de experimentações botânicas colocadas em prática no âmbito do Império Português, entre os séculos XVII e XIX.

Consumido pelos astecas, o chocolate foi levado para a Europa ainda no século XVI. Com o acréscimo de açúcar, se tornou altamente palatável, figurando como artigo de fino consumo no velho continente. Onipresente na Amazônia portuguesa, o cacau foi se tornando rentável para os colonos que se beneficiaram da mão-de-obra indígena. Logo assumiu também o caráter de moeda natural, a exemplo do que há muito se praticava entre os astecas e se preservara na Nova Espanha. No Estado do Maranhão, as moedas naturais dinamizaram a economia até meados do século XVIII e na capitania do Pará a principal era o cacau, cujo valor se media em arrobas. Além de intermediar o comércio regional, era usado no meio oficial, tanto para o pagamento de soldos, como para honrar salários de autoridades e religiosos. Havia um contrato especial para o dízimo do cacau, cuja progressão venal ao longo do século XVIII corresponde aos resultados da política de incentivo para o seu cultivo, levada a cabo a partir da década de 1670. No contexto da crise do império português do Oriente e da expansão do açúcar no Caribe francês, era preciso buscar alternativas econômicas e o cacau já despontava com sucesso em Caracas, chamando a atenção das autoridades portuguesas. Estudos recentes demonstram que nas fazendas de cacau do Pará coexistiram tanto o nativo como o cultivado, caracterizando um sistema agro-florestal, expresso na conexão roça-sertão. Na segunda metade do século XVIII, a cultura do cacau passou a ser experimentada no sul da Bahia. Expoentes da “geração de 1790”, que agregava luso-brasileiros formados em Coimbra, investindo-se dos conhecimentos da botânica de Buffon e Linneu e dos experimentos que passaram a praticar nas matas da comarca de Ilhéus, apontaram as vantagens daquela cultura em relação à da cana-de-açúcar. O intendente Manuel Ferreira da Câmara destacou a facilidade de aclimatação, a simplicidade do manejo e o crescimento do mercado internacional como justificativas para seu incentivo. Já o ouvidor Baltasar da Silva Lisboa via a cultura do cacau como uma saída viável para a integração dos índios aldeados. O cacaueiro se aclimatou tão bem na Mata Atlântica que no final do século seguinte a Bahia se tornaria o maior produtor de cacau do mundo. De lá partiram os primeiros cacaueiros para a África, que foram cultivados inicialmente na Ilha do Príncipe, por volta de 1820. [A: Marcelo Henrique Dias, 2014]

Bibliografia: Alden 1974; Dean 1991; Lima 2006; Walker 2007; Chambouleyron 2012; Lemos 2013.

doi:10.15847/cehc.edittip.2014v018

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