da Terra e do Território no Império Português

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Trigo

O trigo era, em Portugal, o principal cereal panificável. Todavia, por não dispor aí das condições agroclimáticas mais favoráveis, a sua produção ficava com frequência aquém das necessidades de consumo. Essa recorrente escassez de trigo, atestada desde a Idade Média, tem sido mesmo apontada como uma das causas da expansão ultramarina dos portugueses, podendo também explicar por que razão logo experimentaram a cultura deste cereal nas ilhas do Atlântico, descobertas na primeira metade do século XV. Na Madeira, os solos virgens proporcionaram de início uma produção elevada, mas rapidamente a cultura do açúcar se mostrou economicamente mais rentável, passando este arquipélago de exportador para importador de trigo a partir do último quartel do século XV. Nos Açores, relatos entusiásticos do cronista Gaspar Frutuoso mostram como, pelos anos de 1591, já aquelas ilhas se haviam tornado o celeiro das cidades metropolitanas, da Madeira e das praças do Norte de África. Segundo o cronista, após as primeiras queimadas a produtividade do trigo ultrapassava todas as expectativas, com uma média de 60 moios por 1, e colheitas anuais abundantes de 10.000 a 12.000 moios ou mais, só em São Miguel. Daí a rápida ocupação dos terrenos aráveis por este cereal, levando a que o trigo se impusesse até à segunda metade do XVIII como o principal produto de exportação do arquipélago. No século XIX, a sua produção declinaria em S. Miguel mas não na ilha Terceira. A produção de trigo noutros territórios do império português nunca teve expressão significativa, quer pela ausência de condições agroclimáticas adequadas, quer devido à concorrência de outros cereais, como, por exemplo, a mandioca no Brasil, ou o arroz nos territórios asiáticos. [A: Margarida Machado, 2016]

Bibliografia: Frutuoso 1924: IV, 63; João 1991: 107-113; Machado 2006: 205-210; Meneses 2008.
doi:10.15847/cehc.edittip.2016v010

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