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Jesuítas (Atlântico)

Os primeiros jesuítas portugueses desembarcaram no Reino do Congo (África Atlântica) em 1547. Não conseguiram se estabelecer devido aos conflitos com autoridades locais pelo envolvimento dos religiosos no tráfico negreiro. Voltariam no século XVII, mas a atividade missionária pouco avançou nas aldeias nativas. Na América portuguesa os primeiros inacianos desembarcaram com Tomé de Souza, em 1549, participando da fundação de Salvador. Logo se estabeleceram entre os índios da costa, identificando-se como seus protetores, em nome de Deus e do rei. A política territorial portuguesa na América, entre o século XVI e o XVIII, expressou a influência dos jesuítas na definição do sistema de reduções. Diante da dificuldade de promover a catequese pelas missões itinerantes, os jesuítas investiram na desestruturação das aldeias nativas e na instalação de missões regidas espiritualmente e temporalmente pelos missionários. Com o avanço da colonização para os sertões, procederam aos descimentos de grupos indígenas para criar aldeamentos nas imediações das vilas portuguesas. As missões cumpririam os objetivos de dar proteção aos moradores, de impedir as fugas de escravos e também de garantir a oferta de mão-de-obra nativa para os empreendimentos coloniais. Além disso, concorreram para a desarticulação dos movimentos migratórios indígenas, acentuando, assim, a dessocialização dos nativos em prol da maior permeabilidade à catequese. A mesma lógica do desterro também justificou a defesa jesuítica ao tráfico negreiro, correspondendo a travessia atlântica a um “longo descimento marítimo” (na expressão de Alencastro), que promovia a dádiva divina da salvação das almas.

Na América portuguesa, missionários da Ordem atuaram em todas as frentes da expansão colonial, chegando por vezes antes de autoridades e colonos nos mais distantes sertões. Para a sustentação dos colégios, residências e missões, a Companhia obteve junto à corte muitos privilégios fiscais e comerciais, além de um significativo patrimônio fundiário em concessões de sesmarias, acrescido no tempo pela incorporação de terras doadas por fiéis e compradas pelos padres administradores. Na condução administrativa de fazendas de produção de subsistência, engenhos, currais e unidades extrativistas, estes participaram ativamente da vida social e econômica da colônia. Apesar de incorporarem na sua prática temporal os costumes locais, alguns traços distintivos marcaram a administração jesuíta, a exemplo da orientação para incentivar o casamento entre seus escravos, obedecendo ao imperativo dos sacramentos.  Disso decorreu o enraizamento de famílias crioulas nos engenhos jesuíticos, onde um sistema de barganhas cotidianas prevaleceu aos castigos disciplinares. As sesmarias jesuíticas, por sua vez, quando muito extensas, eram parceladas para a prática de aforamento ou arrendamento. Os conflitos decorrentes destes e outros institutos de direito a terra deram margem a inúmeras demandas judiciais. Daí o empenho dos padres procuradores para legitimar suas possessões através de documentos comprobatórios e do apoio de autoridades e magistrados em favor de seus interesses. O comportamento temporal dos inacianos na defesa e na expansão dos bens dos colégios foi o principal fator a degenerar suas relações com a sociedade civil ao longo do século XVIII. Com o Diretório dos Índios (1758), os jesuítas perderam a condução temporal das missões, que passaram à condição de vilas. À proscrição da Ordem (1759), segui-se o confisco e a venda de suas propriedades. [A: Marcelo Henrique Dias, 2014]

Bibliografia: Alden 1996; Alencastro 2000; Assunção 2004; Chanbouleyron e Neves Neto 2011; Dias 2013; Leite 1938-50.

doi:10.15847/cehc.edittip.2014v022

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