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Levadas

As levadas da Ilha da Madeira são canais onde a água corre lentamente todo o ano. Durante séculos canalizaram água para a irrigação de terrenos agrícolas, para fazer funcionar azenhas, engenhos e serras de água, e para consumo doméstico; muitas levadas serviram também, subsidiariamente, como caminhos pedestres. Começaram a ser construídas logo nos primeiros tempos da colonização, no século XV. Eram então aquedutos pouco extensos, feitos com grossas tábuas em forma de calha. Com o aumento das necessidades de água para irrigar os canaviais e outros terrenos agrícolas, a extensão das levadas foi crescendo e a sua construção exigindo técnicas mais seguras. Os canais construídos em alvenaria substituíram as primitivas calhas de madeira. Durante séculos, as levadas foram construídas exclusivamente com a força de homens, que usavam instrumentos rudimentares. Esses rocheiros trabalhavam suspensos por cordas, amarradas em troncos de árvores ou em cabeços de rocha. Metidos em cestos, perfuravam as rochas até abrir a concavidade para encaixar a levada. As levadas mais antigas têm menos de um metro de largura e a profundidade varia entre cinquenta e setenta centímetros. Nas edificadas a partir de meados do século XIX, a altura oscila entre um metro e um metro e vinte centímetros, e a largura ultrapassa ligeiramente um metro. As primitivas levadas eram de propriedade particular, mandadas construir por homens ricos, donos de nascentes e terras de cultivo. Quando tinham água de sobra vendiam-na aos rendeiros e colonos. Ainda no século XV, surgiram outras levadas particulares, construídas por iniciativa de associações de heréus. Os heréus são agricultores que possuem uma parte da água de uma levada. Pagam a conservação do canal e elegem entre si a comissão que administra a levada. A construção de levadas com dinheiros do estado só começou no século XIX, com a Levada Velha do Rabaçal, cujas obras começaram em 1835 e só terminaram em 1860, o que atesta as dificuldades técnicas e financeiras da abertura do canal responsável pelo primeiro transvase de água da vertente norte da ilha para a encosta sul. Até essa altura, a ação do estado tinha sido reduzida, limitando-se a conceder a exploração dos caudais e a fazer leis sobre a administração das levadas particulares, legislação que se conhece desde os finais do século XV.

Na Ilha da Madeira, com apenas 742 Km², a rede de levadas estende-se por cerca de 3.100 Km, dos quais 800 Km correspondem às levadas principais, públicas e privadas, traçadas entre os 1.000 e os 600 metros de altitude, que transportam em permanência a água captada em ribeiras, ribeiros e córregos, e que ora atravessam a floresta de Laurissilva, ora correm no limite superior das terras cultivadas. Os restantes 2.300 Km correspondem às levadas secundárias ou regadeiras, que se abastecem nos canais principais e distribuem a água pelos terrenos agrícolas; os declives são bastante variáveis e o transporte apenas ocorre nos períodos de regadio. As levadas, tal como as íngremes escadarias de poios (terraços), constituem um dos elementos mais característicos da paisagem humanizada e do património cultural madeirense. Em janeiro de 2016 foi oficialmente proposta a sua inscrição no Património Mundial da UNESCO. [A: Raimundo Quintal, 2016]

Bibliografia: Costa 1950-51; Pereira 1989: I, 677-733; Quintal 2011; Silva 1978: II, 452-513; Vieira 2015.
doi: 10.15847/cehc.edittip.2016v009

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