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Elites coloniais (Goa)

É usual dissecar as elites coloniais de Goa fazendo uma primeira repartição entre as católicas e as não-católicas. Quanto às segundas, destacam-se as elites hindus, universo no qual é possível identificar vários grupos. Por um lado, as dinastias de grandes comerciantes que mantiveram relações próximas com os poderes coloniais durante gerações; alguns viram-se inclusivamente agraciados com títulos portugueses nos finais do século XIX. Por outro, as famílias que foram fornecendo oficiais especializados ao Estado da Índia ao longo de décadas, designadamente como “línguas” (intérpretes creditados) e embaixadores, não obstante a entrada de hindus na esfera da administração ter sido muito cerceada até ao advento da República (1910). Por outro lado ainda, e agora apenas no universo das Novas Conquistas, há que ter em conta os vários dessais e sardessais, assim como a família real de Sunda.

No que toca às elites católicas, compunham-se de reinóis, descendentes e naturais, que conviveram em Goa durante largas gerações, por vezes mantendo relações muito tensas entre si e não raro discutindo precedências sociais e políticas. Reinóis eram os europeus vindos do reino (Portugal), nomeados para o desempenho de uma comissão ou preenchimento de um lugar na administração civil, judicial ou religiosa na Índia. Alguns dos principais empregos do Estado da Índia eram-lhes regularmente confiados, pertencendo em regra a este grupo os governadores, o arcebispo e vários prelados do Padroado, os desembargadores da Relação, diversos oficiais militares dos mais graduados, e os físicos-mores. Na maior parte das vezes, a sua passagem pelo oriente era efémera. No entanto, houve sempre reinóis que permaneceram, o que contribuía para a renovação dos chamados descendentes. Esta designação é uma abreviatura de “descendentes de europeus”, aplicando-se a todos aqueles que haviam nascido em Goa ou noutros territórios do Estado da Índia e que, pelo menos em teoria, eram filhos ou netos exclusivamente de portugueses, sem qualquer vestígio de ascendência indiana. Compreende-se que, numa sociedade não só dividida por castas mas também organizada em estados segundo moldes ocidentalizados, a passagem do tempo transformasse este grupo numa quase casta europeia. Restam as elites naturais católicas, grupo composto pelas mais influentes famílias de origem goesa que tinham aderido ao catolicismo e se vieram a ocidentalizar gradualmente, através de um processo que lhes permitiu conservar alguns traços importantes de épocas anteriores, nomeadamente o sistema de castas. É por esse motivo que se costuma distinguir entre as linhagens católicas pertencentes às duas principais castas, brâmanes e chardós, as quais mantiveram em regra relações difíceis, pois cada uma defendia a sua primazia face à outra. Estas famílias, que prezavam não ter mistura de sangue europeu, apesar de terem adotado fórmulas, modelos e padrões ocidentalizados em inúmeros domínios, foram as principais responsáveis pela conservação e funcionamento da máquina judicial, burocrática e religiosa do Estado da Índia pelo menos desde o século XVIII, assumiram um papel preponderante nas dinâmicas políticas locais a partir do liberalismo constitucional, e souberam articular privilégios herdados de regimes anteriores (como o sistema das gancarias e o regime do mundecarato), com apanágios da nobreza política e civil portuguesa. [A: Luís Cabral de Oliveira, 2016]

Bibliografia: Azevedo 1842; Costa 2003; Lopes 1999: 75-134; Oliveira 2014; Oliveira & Costa 2010; Xavier 1846.
doi: 10.15847/cehc.edittip.2016v005