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Curumbim

Durante a administração portuguesa em Goa, e possivelmente também na Província do Norte, os curumbins, católicos ou hindus, eram maioritariamente trabalhadores agrícolas, dependentes dos proprietários de várzeas de arroz e de palmares, cuidando das suas fazendas em troca de uma parte da produção e de abrigo, sem haver troca de dinheiro pelos seus serviços. Neste regime específico de trabalho eram denominados de “manducares”, estatuto em que se incluíam também elementos de outras castas igualmente desprivilegiadas como os sudra. Esta situação alterou-se com a mobilidade económica possibilitada pelas reformas agrárias e subsídios do governo posteriores à anexação de Goa à Índia, em 1961. Os curumbins, por serem considerados os primeiros habitantes de Goa, são classificados como tribais. Simultaneamente, são percepcionados também como casta, na posição ambígua entre os sudra e os intocáveis, nas margens do sistema social. Todavia, grande parte dos curumbins católicos não come carne de porco nem de vaca, utilizando o vegetarianismo, que estrutura a sistema de castas hindu, como um capital social para se auto-valorizar. Coexistem, assim, duas lógicas classificatórias: a da hegemonia goesa, que os coloca no limite inferior da escala social, e a sua própria, que os eleva, a partir da leitura da pureza ritual dos hindus. Do ponto de vista lexical, curumbim ou cunebim são os termos usados pela elite católica, letrada, de Goa, e consequente literatura produzida em português, para se referir a dois grupos sociais ligeiramente diferentes, embora com semelhanças culturais e que casam entre si. Trata-se dos kunnbi/cunnbi e dos gaudde/gawda, como são conhecidos respectivamente em concanim e marati, as duas línguas locais de Goa. [A: Cláudia Pereira, 2016]

Bibliografia: Dalgado 1988; Feio 1979; Pereira 2009.
doi: 10.15847/cehc.edittip.2016v006