da Terra e do Território no Império Português

Início » Baneanes

Category Archives: Baneanes

Baneanes

Nome de uma casta ou grupo ocupacional de indianos, com uma identidade muito própria, que se dedicava principalmente ao comércio, crédito e ofícios artesanais, tendo desempenhado um papel de relevo na organização económica e social do império português do Índico. Baneane deriva dos vocábulos de origem sânscrita vanij (que significa mercador) e vanig-jana (homem de negócio), ou, em língua guzerate, de vaniyo (negociante) e vaniyan (negociantes). Nos primeiros relatos portugueses, os baneanes, sobretudo na Índia, eram considerados na sua acepção mais restrita, porquanto as suas práticas económicas, sociais e religiosas se identificavam com a doutrina da não-violência (ahimsa) que, ainda que comum ao hinduísmo e ao jainismo, só pelos jainas foi seguida até às últimas consequências. Duarte Barbosa escrevia em 1516: “Há também neste reino de Cambaia outras sortes de gentios a que chamam baneanes e guzerates. São mui grandes mercadores e tratantes (…), homens que não comem carne nem pescado nem cousa alguma que morra, nem matam nenhuma cousa viva nem querem ver matar, que lho defende sua idolatria”. Compreende-se, assim, a razão pela qual a actividade agrícola estava vedada aos jainas: o cultivo da terra podia ferir e matar pequenos animais cuja alma devia ser respeitada. Também o dicionário Hobson-Jobson, de 1886, registava a palavra baneane na sua acepção restrita, compreendendo apenas os hindus do Guzerate e do Bengala. Diferentemente, o sacerdote e lexicógrafo goês Sebastião Dalgado esclareceu que, rigorosamente, baneane designava os jainas que exerciam a mercancia, mas aplicava-se, por ampliação, a qualquer comerciante hindu, assumindo-se assim como um termo funcional cuja utilização visava um entendimento geral amplo.

Desde tempos recuados os baneanes fixaram-se em diversos portos do Índico, mormente na península arábica e na costa oriental africana. Em Moçambique só foram autorizados a fixar-se em 1686, onde actuaram ao abrigo da chamada Companhia dos Baneanes, fazendo dos negócios, câmbio e crédito as suas principais actividades. Circunscrita à pequena ilha de Moçambique, a comunidade compunha-se só de homens, sem as mulheres, pelo que a quase totalidade dos seus rendimentos era remetida para as famílias, estabelecidas no Guzerate. Mais tarde, o desenvolvimento da sua actividade comercial e financeira implicou necessariamente a fixação na terra firme e no interior do continente, onde já se fazia sentir a presença dos portugueses. Em meados do século XVIII obtiveram algumas propriedades, por compra ou por execução de dívidas de portugueses que caíram na dependência do crédito concedido pela comunidade baneane. Terrenos, palmares e outros bens de raiz, que antes pertenciam a senhores de prazos e traficantes de escravos, acabariam assim em mãos de baneanes. Frequentemente, estas propriedades mais não eram que entrepostos no interior sertanejo, simples casas de negócio e moradia que tinham junto um pequeno jardim e horta. O aproveitamento agrícola era residual. Ainda assim, dependendo do tipo de palmar, utilizavam a madeira para construção, a polpa dos frutos para alimento e as sementes para produção de óleo; em outros terrenos criavam gado vacum, apenas para extracção de leite; nos quintais e hortas, escravos domésticos cultivavam legumes e hortaliças para consumo domiciliário, porquanto os baneanes eram vegetarianos. A ligação dos baneanes com a terra, em termos de agricultura ou de propriedade, era assim limitada e indirecta. No entanto, o estabelecimento dessas casas comerciais no sertão acompanhou e facilitou a abertura de novas rotas e fluxos populacionais no interior, contribuindo desse modo para o alargamento e definição do território moçambicano subordinado à autoridade colonial dos portugueses. [A: Luís Frederico Antunes, 2015]

Bibliografia: Antunes 2001; Barbosa 1996 [1516]; Dalgado 1988; Yule & Burnell 1903.
doi: 10.15847/cehc.edittip.2015v047

Anúncios