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Arquivos coloniais

A afirmação da História enquanto disciplina académica foi acompanhada por uma valorização do arquivo como espaço privilegiado da investigação histórica. Para sucessivas gerações de historiadores, o arquivo – e, em particular, o arquivo estatal – foi não só um lugar de pesquisa empírica mas também de validação científica. Todavia, nas últimas décadas o arquivo deixou de ser encarado apenas como um repositório de fontes sobre o passado, tornando-se ele próprio num objecto central de reflexão teórica e epistemológica para historiadores, arquivistas e cientistas sociais. Esta “viragem arquivística” (archival turn) foi em parte influenciada pelos trabalhos de autores como Michel Foucault ou Jacques Derrida, que chamaram à atenção para as relações de poder inerentes à constituição dos arquivos, suscitando um interesse renovado pelo estudo das suas lógicas de composição, acumulação e organização, assim como pelo mapeamento das parcialidades e silêncios da documentação. Mas este interesse pelo arquivo foi também influenciado pelos estudos de historiadores como Carlo Ginzburg, Arlette Farge ou Natalie Zemon Davis, que propuseram novas abordagens à documentação arquivística, com o objectivo de recuperar os percursos de sujeitos históricos normalmente subalternizados tanto pela historiografia como pelas lógicas de organização dos arquivos. Estas preocupações foram acompanhadas, a partir das décadas de 1970 e 1980, pelo recurso crescente a fontes orais, escritos pessoais ou imagens, que pôs em causa a centralidade da documentação oficial nas narrativas historiográficas, levando a um alargamento da própria ideia de arquivo.

O desafio representado por estas novas formas de pensar o arquivo tem sido particularmente influente no campo dos estudos coloniais e pós-coloniais, acompanhando o questionamento a que as relações entre conhecimento e colonialismo foram submetidas na senda dos trabalhos de Edward Said, Bernard Cohn ou Gayatari Spivak. Neste sentido, autores como Ranajit Guha e a escola dos Subaltern Studies procuraram identificar o peso das intencionalidades e categorias mentais dos colonizadores na organização dos arquivos coloniais, problematizando o modo de ler os documentos produzidos neste contexto de forma a aceder à história e às subjectividades dos colonizados. Esta consciência de que os arquivos coloniais, mais do que lugares onde se encontram simplesmente depositados os traços dos projectos de dominação, foram também parte integrante desses mesmos projectos, levou igualmente diversos investigadores a analisar o papel do arquivo enquanto tecnologia de governo. Os arquivos estariam, deste modo, associados ao desenvolvimento, por parte das autoridades coloniais, de instrumentos e técnicas de classificação das populações locais, demarcação das fronteiras, identificação de formas de propriedade fundiária ou cobrança de rendas e direitos fiscais, para referir apenas alguns exemplos no âmbito deste dicionário. Tomando os arquivos coloniais como objecto de investigação, autores como Ann Laura Stoler ou Tony Ballantyne alertaram também para a necessidade de tomar em consideração os conflitos inscritos no próprio arquivo, os vestígios das ansiedades e incertezas das autoridades coloniais, das circulações do conhecimento entre diferentes espaços, e do papel, muitas vezes silenciado, dos agentes locais na construção desse mesmo conhecimento. Por fim, as reflexões em torno do arquivo colonial procuram ainda ter em conta as suas repercussões no presente, tanto no que diz respeito ao trabalho de historiadores e arquivistas, como aos debates mais vastos sobre o colonialismo e os seus legados. [A: José Ferreira, 2015]

Bibliografia: Ballantyne 2004; Burton 2006; De Vivo 2013; Roque e Wagner 2011; Stoler 2002; Stoler 2009.

doi:10.15847/cehc.edittip.2015v013

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