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Algodão

Até meados do século XVII, na Europa e nos impérios coloniais, a fibra do algodão era utilizada para o fabrico de sacaria e outros tecidos grosseiros. Para a produção de roupas, a lã e o linho eram as preferidas. Na América portuguesa, as populações nativas utilizavam o algodão em rama, transformando-o em tecido por um processo rudimentar de fiação. Com essa matéria-prima produziam cordas e redes para dormir e pescar. Desde os primeiros contatos com os europeus, o algodão foi inserido no conjunto de produtos da terra que movimentaram o escambo com traficantes de pau-brasil. Com o início da colonização portuguesa e a expansão da economia açucareira na faixa litorânea, a demanda por um tecido resistente e de baixo custo para sacaria e também para a vestimenta de escravos requereu medidas de incentivo da Coroa, como a recomendação para que Martim Soares Moreno, conquistador do Ceará, plantasse algodoeiros. Na paisagem dos engenhos pernambucanos figuravam, além dos canaviais e das roças de mandioca, pequenas lavouras de algodão. Uma parte da produção era embarcada no porto de Recife em meio às cargas de açúcar e pau-brasil. As espécies cultivadas eram nativas, as quais se incluem numa gama de diferentes variedades americanas reduzidas pelos botânicos a uma única denominação: Gossypium Barbadense. A produção se manteve estável até o terceiro quartel do século XVIII, quando passou a assumir um papel de destaque no comércio colonial. O estímulo advindo da metrópole correspondia, em primeiro lugar, à expansão do comércio externo, sobretudo com a Inglaterra, cujo abastecimento da principal matéria-prima da Revolução Industrial se vira abalado no contexto da independência americana. Somava-se a demanda da indústria têxtil interna, revigorada pelas políticas econômicas pombalinas. Boa parte do algodão produzido no nordeste brasileiro era, assim, beneficiada nos teares e nas estamparias da metrópole, retornando à colônia como produto finalizado. A atuação das companhias de comércio criadas para o Maranhão e para Pernambuco foi vital para introdução de espécies mais produtivas e para o suprimento de mão-de-obra africana. Com efeito, “o algodão, apesar de branco, tornará preto o Maranhão”, na expressão de Caio Prado Jr. A cotonicultura possibilitou o aproveitamento de pequenas e médias parcelas de terra e, por não exigir mão-de-obra numerosa e equipamentos de alto custo, como os engenhos, tornou-se uma cultura aberta a produtores de menores cabedais. Na época da colheita, quando se necessitava maior número de trabalhadores, criava empregos sazonais à população livre e pobre, normalmente dedicada à produção de mandioca e à criação de gado. Além do Maranhão e de Pernambuco, a lavoura de algodão também se expandiu na Bahia e no Ceará, chegando a representar, na virada do século XIX, 24% das exportações da colônia. Vale ainda referir que mais tarde, nos territórios africanos do império português, a produção de algodão passou a ter grande expressão nos séculos XIX e XX, especialmente em Moçambique, mas também em Angola, onde a exploração foi dominada pela Cotonang (uma companhia luso-belga). Os conflitos envolvendo os produtores de algodão de Cassange (1961) tiveram, aliás, uma relação próxima com o início das lutas de libertação nesse território. [A: Marcelo Henrique Dias, 2014]

Bibliografia: Amaral 1958; Dean 1991; Fortuna 1993; Prado Jr 1986; Ribeiro Jr. 1981; Serrão 1993.

doi:10.15847/cehc.edittip.2014v080